quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Condenação da Boca para Fora

Pois aqui estamos todos reunidos
Em profundo respeito e ideal acurado
Para em nome dos santos remidos
Após breve exegese dar o resultado

Segue que a boca é pecaminosa
Em excesso e deficiência
Pois ora é prolixa e ruidosa,
Ora de palavras tem carência.

Quando nada fala tomam-na
Por desinteressada pelo irmão.
Da vez que fala reprovam-na
Por nunca entender a situação.

Desta feita, sem rodeios,
Amaldiçoada pelo cruel
Deixarás todos os meios
E encobrir-se-á com véu.

Nunca mais serás lembrada.
Será como não tivesse existido.
Selo com força essa empreitada.
Retira-te agora, membro esquecido.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Este é só mais um poema de há dor

Do nada, por graça, o coração dispara.
Um coração que só queria atenção
E agora percebe que essa coisa é rara
E não faz parte da sua inclinação.

Entrementes, não consegue declinar
O convite à tentativa de amor
O corpo fremido já não pode arregimentar
As palavras de um poema de há dor

Pululante e audaz com o tirso em punho
O nobre cardíaco membro de novo se levanta
A travar batalha de romântico cunho
Donde até a incansável Vênus se espanta

Com notada teima e pesporrência
Tentam-lhe fazer ao que é indelével olvidar
E contra tudo que o ensinou a prudência
Queda-se inglório no pedido de amar

Terá fim o sufrágio deste pobre
- Que de tanto amor descobriu carícias -
Que derrete com as paixões até o cobre,
Ou será apenas vítima de malícias?

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Terremoto

Estatelada, parada, totalmente imóvel estava a rocha.
Via e vivia a realidade das Minas.
Um tanto quanto esburacada pelas escavações que muitos já haviam feito no passado,
Não esperava tamanha surpresa.
Percebeu-se tremendo.
Lembrou-se do chafariz seco que ficava em seu topo.
Nem água mais vertia há bastante tempo.
Por que essa atividade toda agora?

As placas tectônicas do seu corpo movimentaram-se novamente.
E a rocha olhou para o vazio...
Um olhar é capaz de paralisar o mundo.
E o mundo parou. Era ansiedade de novo.
Sentimentos medidos pela Escala Richter
Já beiravam o nove ponto cinco.
Uma grande força destruidora a fazia tremer.
Quem foi que acordou a rocha adormecida?
Foi o tempo.

O impulso das coisas da vida
A poesia que dá vida até à rocha
que é só mais uma pedra,
a fez tremer contra sua vontade.
Não havia mais o que fazer a não ser tremer diante de inexplicável beleza natural.
É natural das rochas buscar um terremoto.
Desde que descobriram que as placas tectônicas não ficam paradas,
exigem o movimento ainda que destruam o planeta,
percebeu-se que a impulsiva rocha é a mais ansiosa e movimentada das forças naturais.
Se a água se mexe facilmente a todo momento,
A rocha clama por mais terremotos,
Mesmo feliz onde está não consegue ficar parada,
Quer se movimentar a todo custo, se lhe der vontade.

A rocha aprendeu com o terremoto:
Ela pode ser poeira e voar ao vento.
Treme a cada sopro, vai ao olho e cega
o que é externo para enxergarem somente a pureza do que há por dentro.
Os terremotos são violentíssimos para os humanos,
mas quem sabe não seja uma delicadeza a mais para a rocha?

Lavanderia

Estava eu na beira do tanque lavando minha roupa e pensando na vida.
Enquanto lavo levo o pensamento para o campo do leve.
Um alívio louva meu tanque, cansado de tantas guerras com escova e manchas da barra pesada da minha calça de trabalho árduo, da artesania do teatro.
O amaciante suaviza meus tecidos e me perfuma a armadura de pano. 
Torço a roupa, torço por você, por nós, tento desfazer os nós e desamarroto o amor pra secar no varal. Roupa limpa, macia, perfumada pra te abraçar. Sem machismo. Homem também lava roupa. Homem que pôs no varal, homem que vai tirar. Não pode? Vejo-me no balde. Terei sido torcido por você? 
Dói, mas elimina os excessos de água. No meu caso, os excessos das lágrimas que me trazem solidão. 
Retorço-me em você e já não tenho mais nada. Dividi meu sabão com você e nossa máquina de lavar passa fome junto à bacia, ao quadril, ao estômago, ao rosto que seca. Já secou. 
Hora de recolher a roupa do varal. Muita secura faz mal ao tecido e ao meu amável coração. 
Nos cabides penduro sem cabimento as matizes que me cobrem, vestem e revestem.
Admiro-me organizado, pendurado em cabides na arara que não canta. Aliás, não canta nem tem cor. Arara que não se pendura, mas deixa-se ser perdurada por duras penas que escondem magnífica nudez de homem.
Assim sou, cheirando a lavanda, lavado por mim, em nosso nome, esfregado, torcido, seco, mas perfumado. Afinal, é assim que funciona. 
Quem sente o perfume de alma lavada não imagina a dor - e a delícia - que a faz possível.
Que o calor nos desamarrote agora.
Com a permissão paradoxal de nos amarrotar em seguida.
É este mesmo calor que nos sujará para precisarmos da lavanderia novamente.
Balde desbunda chamando-me, provocador.
E lá vou eu de novo para o seu tanque esfregar-nos,
minha linda e doce, impossível de mirar,
Companhia.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

No cantinho

Adoro quando você dorme durante a tarde.
Posso chorar sem explicar nada pra ninguém.

domingo, 15 de junho de 2014

Ansiedade

Pisca
Olha pra um lado
Olha pra outro lado
Respira fundo.

Tudo é muito interessante.
Olho pra tudo e não paro em nada.
Ao mesmo tempo tudo é chato.

Elétrico me coloco sentado.
A perna direita agitada balança.
Mudo de canal 70 vezes por minuto
E não tenho paciência para nada.
Coço a perna.
Mudo de canal mais uma vez.

Converso com Hilton
O papo é longo.
Converso de novo.
E de novo.
E de novo.
Canso de falar.
Escuto Lana Del Rey
E nem assim diminuo o ritmo.

É melhor desligar a TV.
Não. Ligo de novo.
Tento assistir Black Swan.
Melhor não.
Penso em me arranhar também.
Quem sabe eu arranco uma pena preta recém brotada em minhas costas?
Estalo todos os dedos.
Quem ligou a televisão?
Desligo de novo e ligo em seguida.

Passo a mão na testa e limpo o suor.
Paro.
O estômago começa a doer.
Pego o celular.
Será que meu amor vai me ligar agora?
Não. Não ligou.
E agora?
Não. Nenhuma ligação.
Penso em ir tomar um banho.
Água relaxa.
Vou.
Não vou.
Vou.
Não vou.
Uma pontada no estômago.
Saio correndo pra vomitar.
Droga. Odeio vomitar.
Lavo o rosto.
Minhas mãos tremem.
Terremoto.
Tenho um terremoto dentro de mim.
Coço a cabeça.
Será que quero chorar?
Não. Estou bem.

Será que não consigo fazer meditação?
As costas doem.
Quero me deitar.
Não consigo ficar quieto hoje.
Maldito domingo à noite.
E se eu morrer?
Não, não vou morrer agora.
Como posso ter certeza?
Ah, cale a boca e morra em paz.
Paz?
Não consigo.
E o banho, não vai tomar?
Ah, o banho. Vou.
Sem vomitar dessa vez.
Posso até fazer autoaplicação de Reiki.
Isso! Reiki!
REI-KI
Chorar
REI-KI
Chorar
REI-KI
Por que estou chorando?
Que merda ser tão sensível.
REI-KI
Cores
REI-KI
Mente leve
Chapado de Reiki
Risos.
Tranquilo.
Não penso na aula que vou dar amanhã.
Suspiro.

Até que a vida é boa!

Inominável

O chão frio, a casa vazia e tudo que me permeia. Não consigo ficar bem, mas também não consigo ficar mal.
Um milhão de coisas me pesam às costas quando saio de casa. Aqui dentro eu sei que elas ainda existem, mas não atingem. Todas as minhas preocupações não são esquecidas, mas mesmo assim não consigo dar atenção à elas.
Será que estou no equilíbrio? Maldito equilíbrio.


Sei que a vida está no auge,
Mas não me interesso.
Não sofro,
não desejo,
não espero,
não quero.

Não preciso de nada.

Não tenho fome, não tenho sede.
Não tenho nome, não tenho rede.
Não tenho frio, não tenho calor.

Não tenho vida, não tenho morte.
Não tenho azar, não tenho sorte.
Não tenho vazio, não tenho esplendor.
 

sábado, 14 de junho de 2014

Autorretrato

Eu sou Amor, sou Palavra, sou Água, sou Menino de Lá do Rosa e da Clara, sou a singeleza de uma cidade do interior mineiro, sou as forças da natureza implacáveis e poderosas. Sou Oxossi, sou Oxum, sou Oxumaré. Sou perdido de gosto por tudo que gosto e gosto de com força de tudo.

domingo, 18 de maio de 2014

No me

A sensação é mais ou menos assim:
Um sem-lugar dentro de mim.

E chora, chora, e chora
e reclama, e demora, ora
labora, melhora, piora,
chora, chora e chora.

Preciso da atenção que não me dão
porque pensei que carinho era precisão.

Sentir-se como ser amado até a eternidade
às vezes não é para todo mundo de verdade.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Sobre minha fuga com a Lua

Cuidado.

Cadê os beijos vermelhos?
Cadê os olhos brilhantes?
Cadê o beijo no sorriso?
Cadê?

Se a cada vez que eu olhar pra você eu enxergar você,
Tudo certo.
Mas se a cada vez que eu olhar no espelho ainda enxergar você,
Temos um problema.

Quando a lua sobe, deixando sua casa atrás da serra,
Não importa o quanto ela está brilhante,
Se você não abrir a janela, não vai vê-la.
E assim como a lua não acena pra você, também não posso mais.

Tomara que você não resolva nos procurar
- a lua e eu -
quanto for noite de lua nova.
Você pode não nos encontrar no céu.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Exortações e Outras Alegrias

Ai de todos!

Ai daqueles que não viram as pequenas alegrias que passam correndo levantando a saia como brisa serelepe...

Ai daqueles que estiveram certos o tempo todo e nunca souberam que estavam errados...

Ai daqueles que fizeram e aconteceram para mostrarem que são tão bons. Um anjo cochichou-me que os bons não se apresentam, são apresentados...

Ai daqueles que se tornaram os mais populares do pedaço e na hora de chorar, choram sozinhos em seus quartos mofados...

Ai daqueles que mostraram suas riquezas a todos. Todos amam suas traquitanas novas, mas ninguém ama o velho e imutável você...

Ai daqueles que lamberam o chão pisado pelos doutos, pois um cachorrinho divertido e inconveniente toma garrafada na cabeça...

Ai daqueles que deixam sua terra onde abunda leite e mel para morar em uma pobre e velha cidade que os recebeu de braços abertos. Sinto tanto por vocês que poderiam ter ficado em seus estados de espírito, mas não foram aceitos...

Ai daqueles que reclamam e tomam banho em uma banheira púrpura de rancor! Ao invés de mergulhar cada vez mais fundo e reclamar ainda mais, dou-lhes uma notícia: vocês podem sair da banheira e viver outra coisa...

Ai daqueles que leram todas as teorias, mas jamais terão a sensibilidade de colocá-las em prática. O que nos toca não poderá ser sua saliva programada, deverá ser a verdade da sua prática...

Ai de mim que me preocupo com Vossa Desgracência.