quinta-feira, 31 de julho de 2014

Lavanderia

Estava eu na beira do tanque lavando minha roupa e pensando na vida.
Enquanto lavo levo o pensamento para o campo do leve.
Um alívio louva meu tanque, cansado de tantas guerras com escova e manchas da barra pesada da minha calça de trabalho árduo, da artesania do teatro.
O amaciante suaviza meus tecidos e me perfuma a armadura de pano. 
Torço a roupa, torço por você, por nós, tento desfazer os nós e desamarroto o amor pra secar no varal. Roupa limpa, macia, perfumada pra te abraçar. Sem machismo. Homem também lava roupa. Homem que pôs no varal, homem que vai tirar. Não pode? Vejo-me no balde. Terei sido torcido por você? 
Dói, mas elimina os excessos de água. No meu caso, os excessos das lágrimas que me trazem solidão. 
Retorço-me em você e já não tenho mais nada. Dividi meu sabão com você e nossa máquina de lavar passa fome junto à bacia, ao quadril, ao estômago, ao rosto que seca. Já secou. 
Hora de recolher a roupa do varal. Muita secura faz mal ao tecido e ao meu amável coração. 
Nos cabides penduro sem cabimento as matizes que me cobrem, vestem e revestem.
Admiro-me organizado, pendurado em cabides na arara que não canta. Aliás, não canta nem tem cor. Arara que não se pendura, mas deixa-se ser perdurada por duras penas que escondem magnífica nudez de homem.
Assim sou, cheirando a lavanda, lavado por mim, em nosso nome, esfregado, torcido, seco, mas perfumado. Afinal, é assim que funciona. 
Quem sente o perfume de alma lavada não imagina a dor - e a delícia - que a faz possível.
Que o calor nos desamarrote agora.
Com a permissão paradoxal de nos amarrotar em seguida.
É este mesmo calor que nos sujará para precisarmos da lavanderia novamente.
Balde desbunda chamando-me, provocador.
E lá vou eu de novo para o seu tanque esfregar-nos,
minha linda e doce, impossível de mirar,
Companhia.

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