domingo, 23 de junho de 2013

DESESPERO AURINEGRO

A vista da varanda me conta da esquerda para a direita
Santa Efigênia, Capela das Dores, o ipê com flores roxas de Marília,
Os eucaliptos que velam a universidade,
A Capela de Aparecida, a Mercês de Baixo, a Conceição,
a São Francisco de Assis, a Rua Esquerda, o Museu da Inconfidência,
a pontinha da torre do Carmo, Tiradentes de pé, a Escola de Minas,
e tudo que vejo é o  cruel esquecimento dos cemitérios
e a preguiça inerte barroca.
As nuvens não deixam ver o Pico do Itacolomi,
mas a paisagem é desesperadoramente bela.

Ouro Preto é sanguinolenta,
cheira a álcool e nos prende com beijos molhados.
Com uma língua voraz nos saboreia compulsivamente.
O sino do museu bate a meia hora.
Os chafarizes que secaram invejam os que ainda vertem água
contaminada de loucura pelos mineradores de muitos séculos.

A cidade abocanha a tudo e a todos
e insiste, e quer mais, e bebe nossos corpos
 com uma sede lasciva, tranquila para turista ver,
uma sede voraz como que precisasse da seiva
do corpo de outro para sobreviver
tal qual vampira desesperada.

E desesperado me entrego
cheio de não-quereres, dizendo que não posso, não quero,
mas os paralelepípedos que disfarçam as ladeiras
[que contemplam e exalam uma burrice e uma bestialidade tri-centenárias]
me reviram do avesso. Me fazem querer parar e continuar,
sem saber o que fazer em seguida.
O inverno é tão frio, mas acabo ensopado de suor.
O corpo escorre líquido, porque as ladeiras precisam beber
as escatologias dos que aqui passam.

Não há orifício que não se imole diante de tamanha violência poética.
Todos oferecem suas preciosidades podres ao barroco.
No entanto, um líquido ainda tem a sorte de transitar entre os dois mundos
- o do terror e o do êxtase -
e este líquido são as lágrimas.
As que me foram arrancadas ao primeiro contato com a monstruosidade do Pilar
que surgiu à minha frente depois de descer as escadinhas de uma ladeira.
Lágrimas me foram roubadas da vertiginosa vista da São Francisco de Paula,
do mirante do Morro do Cruzeiro, do mirante do São Sebastião,
o trem levou consigo minhas lágrimas emocionadas da primeira vez.
Lágrimas soluçantes na escadaria da Santa Efigênia diante da grandiosa Paixão
do Cristo;
Lágrimas incontroláveis e sufocantes diante de tanta beleza vista na Casa da Ópera.
Tudo pode ser tão belo que dá vontade de morrer com um grito, e se repartir em vários pedaços
explodir mesmo, ou ser esquartejado e exposto como Tiradentes o fora.
Talvez seja esta a intenção da Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto.

Se eu ainda não me juntei à Sinhá Olímpia, à Ninica, ao Angu e a tantos outros,
é porque
a Adélia, a Elisa e o Rubem,
o Drummond, o Pessoa e o Leminski,
o Quintana, o Bandeira e o Rosa,
a Hilda, a Clarice e o Caio,
o Bashô
e toda as falanges das quais eles fazem parte,
me ensinaram uma forma de combater o bom combate,
detonando as poesias atômicas que arrasam com tudo.
E principalmente, aquele que veio muito antes de mim,
e que lutou e morreu e pisou e amou inconfidente,
Tomás, confidencial Dirceu.
Obrigado por me aliviar.

[Rubrica: terminar a leitura com um suspiro aliviado]

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Oração Mental

Quando me vem esse aperto no peito
e eu penso que não vou dar conta,
eu me lembro de todos os conselhos
que distribuí...
Uma certeza de que é tudo meu,
essa tristeza, essa falta de ânimo,
essa falta de ar,
me assombra e me esclarece.

Hoje eu sonhei com um amigo
que não vejo há muito tempo.
Uma saudade mansinha...
Daquelas que não doem
nem incomodam,
só alegram a gente
por causa de uma coisa boa que vivemos
há uns sete anos atrás.

Quando não se espera nada da vida,
qualquer coisa que acontecer
já é uma grande coisa.
Eu escrevi isso há bastante tempo,
quando tudo estava bem,
pra ouvir isso dito pela boca
de um ator.
Ele nunca disse, mas está escrito.

Os poemas têm o direito de serem assim, tão sem graça?

Porque talvez seja este o problema:
esperar muito da vida, quando na verdade,
não precisamos de nada além de uma comida gostosa,
uma água fresca e uma cama macia.


domingo, 9 de junho de 2013

Feito Clown

PRÓLOGO

"Benja", a Teuda precisa de um soutien novo,
Você não percebeu?
"Benja", não confunda o louco da cidade
com o prefeito.
"Benja", vocês bem que podiam
apresentar em Passos...
"Benja", e o ventilador?

***

Preciso urgentemente encontrar
meu ventilador.
Meu giro, minha gira,
Meu giro alucinógeno,
Meu dervixe rodopiante
Meu transe que gira,
Minha gira.

Isto que gira, saiba,
é paixão obsessiva,
desenfreada,
insana, e
ao mesmo tempo,
é anestesia, dormência
deleite,
algo que rutile até cegar.

Por que não posso com que prefulgir
de pronto, quando quero?
Parece que sei o que espero,
mas não sei se meu desejo anela
minha presença física e mental
tanto quanto eu o anelo.

Rápido, jogue-me no meio da roda
e me faça girar, deixe girar
o que gira.
Que eu encontre meu ventilador,
que eu possa fazê-lo parar
com as minhas mãos,
ou se não isso,
ao menos deixe-me tocá-lo,
conhecê-lo!

Deixe-me reconhecer este afã
de ter um objeto de devoção,
uma vida para guardar
no precioso do ser.

***

EPÍLOGO

"Benja", não tô dando conta.
"Benja", me conta de novo
o que o rato, o gato e o palhaço
fazem?

domingo, 2 de junho de 2013

Gal Costa - "Onde Deus Possa Me Ouvir"

Sabe o que eu mais quero agora?



Deixa eu chorar até cansar...



Me deixe aqui, pode sair...

SUSPIRADO

Até aceito o cansaço,
Só não o entendo.
Sei que não é só isso.

Um girassol, por exemplo,
Não é só um girassol.
É um pedaço de Sol apaixonado
Que segue seu astro amado.

Então meu cansaço deve ser
Parte de alguma coisa apaixonada
Por outra coisa amada ainda maior.

Engraçado isso de apaixonado,
Porque minha mãe sempre usou a palavra, triste
"Fulano ficou apaixonado por não ter ido..."
Sendo assim, a outra parte do meu cansaço
Pode ser paixão.

Paixão é coisa triste.
Ô m'ô Deus!
Esse menino tá momento demais!

CORTEJO

Tan-tan-tan
tan-tantantan

tan-tan-tan
tan-tantantan

tan-tan-tan
tan-tantantan

***

tá-tá-rá-rá-tá
tantan

tá-tá-rá-rá-tá
tantan

tá-tá-rá-rá-tá
tantan

TAROT

Numa consulta às cartas
(Pela internet)
(Mandinga digital)
Lhe fora revelado toda a vileza.

Não lhe caberia fugir do destino soberano.
Acabariam por lhe passar a perna,
Lhe jogar no chão,
e subiriam em sua carcaça para atingir o topo.

Não.

Estava decidido a passar por isso incólume.
Impávido jamais se entregaria.

Faria com que as dores se voltassem contra o agressor.
A criatura tão pérfida e astuta queimaria a língua em um caldeirão de óleo fervente 
Ao meter o nariz pensando se tratar de fina sopa.

Mas quando o facínora corrupto foi mostrar a cara,
A conexão caiu.