segunda-feira, 21 de setembro de 2015

CARTA DE DESPEDIDA

Em tempo:
Antes de qualquer coisa, eu agradeço por tudo. Ainda que minhas palavras pareçam amargas às vezes, não se entristeça. Faz parte do processo.


Aquele monte de palavras emboladas na garganta…
Não sabem se saem, se não saem, como saem,
Especialmente pelo motivo de que não querem causar dor,
Desejam dar vazão ao sentimento.
Então, não aguentando mais, porque algumas coisas são atrevidas
E não respeitam certas ordens, não ouvem quando lhes dizem:
“O melhor é se calar”,
Sobremaneira alcançam a voz que não soa, mas ensandecida faz escrever.
Sem qualquer pretensão de poesia bonita ou rima forçada.

Tenho sofrido muito. Certamente porque me entreguei.
Comemorei cada dia onze nos últimos vinte e um meses.
Ainda que não houvesse o que comemorar, forcei-me debalde.
Tive esperança, agradeci, acreditei, me enganei, decidi.
Abri os olhos. E só então pude realmente entender.
Sofro porque quero. Quero a plenitude que me aguarda.
Queria tanto já ter finalmente encontrado. Ledo engano.  

É preciso ressaltar, para não incorrer na senda da injustiça,
Que vislumbrei doces momentos, pueris esperanças.
Ainda que muitas, percebo, talvez tenham sido fruto de minha imaginação,
Valeram a vivência. Ensinaram-me.
Ensinaram-me o Amor. Amor Próprio, Amor à Vida.

Você morou muito tempo em minha cabeça, sem pagar aluguel.
Sinto que você está ainda retirando suas coisas,
Desocupando o imóvel…
Agora vem o momento em que vou pintar as paredes,
Fazer os devidos reparos… acertar as contas em atraso…
Dói olhar para o estado em que você deixou essa casa.
Dessa vez não alugarei a ninguém. Vou ocupar a totalidade eu mesmo.
No decorrer da vida, quero convidar alguém pra morar comigo,
Mas nunca mais deixarei alguém assumir o imóvel assim.

Estou fazendo um grande esforço para não sentir raiva.
Juro a mim mesmo não me referir a você depreciativamente.
Por enquanto, mesmo tendo acordado sermos amigos,
Não posso ser. Não é justo com meus amigos.
Eu os trato de uma forma, lhes dedico carinhos, que não te pertencem.
Não é possível. Tentei. Mas não tenho vontade dos seus olhos.
Sei que isto é causado pela minha inferioridade.
Orgulho ferido, sensação de não ter sido o bastante,
Ou pior, não ter sido merecedor da sua atenção.
Minha boca não foi a que você quis. Você foi procurar outras.
Meu corpo gritava pelo seu. O seu sussurrava quase inaudivelmente
“Não estou querendo”.
Demorei pra perceber, porque não sabia a linguagem de sinais (talvez).

Tenho certeza de que lerei isto daqui um tempo e darei uma sonora gargalhada.
Pensarei no quanto eu fui fraco, tentarei enumerar mais uma vez minhas qualidades
Pra ter certeza de que você perdeu muita coisa.
NÃO!
Pra que ser tão cruel conosco?
Você perdeu muita coisa. Eu também perdi. Ficamos quites.

Tenho um destino lindo pela frente. De que terei medo?
Por que me entregarei à tristeza?
E, de mais a mais, meu Santo me guarda! (Okê Arô)
Pedi pra Oxum me ajudar, pra Iansã e Xangô fazerem justiça
(filho de Umbanda não cai)
Pedi pra Oxumaré transformar meu coração,
Obaluaê transformar minha vida,
Ogum me ajudar nas batalhas,
Iemanjá levar o rancor pras ondas do Mar Sagrado,
Nanã me dar sabedoria,
Exu abrir meus caminhos me concedendo força e vitalidade,
E, principalmente, pedi pra Oxalá me dar paz.

E assim termino essa despedida.
Pensei em qual seria a necessidade de publicar isto.
Não seria melhor entregar em suas mãos?
Escondi estas palavras em um lugar que você possa encontrar, se quiser.
Por favor, não venha me dizer que leu.
Não quero sua opinião, porque, no fim das contas, escrevi pra mim mesmo.
Pro meu peito parar de sangrar,
Pra me libertar do passado de uma vez por todas.
Eu ainda miro e vejo,
Mas vejo outro futuro,
Vejo um compromisso comigo mesmo.
Já me estendi além da conta.
Firmo-me, para não dizer outras sentimentalidades movidas pelo calor da emoção.
Cordialmente,

Eu.

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