Em tempo:
Antes de qualquer coisa, eu agradeço por tudo. Ainda que minhas palavras pareçam amargas às vezes, não se entristeça. Faz parte do processo.
Aquele monte de palavras emboladas na garganta…
Não sabem se saem, se não saem, como saem,
Especialmente pelo motivo de que não querem causar dor,
Desejam dar vazão ao sentimento.
Então, não aguentando mais, porque algumas coisas são
atrevidas
E não respeitam certas ordens, não ouvem quando lhes dizem:
“O melhor é se calar”,
Sobremaneira alcançam a voz que não soa, mas ensandecida faz escrever.
Sem qualquer pretensão de poesia bonita ou rima forçada.
Tenho sofrido muito. Certamente porque me entreguei.
Comemorei cada dia onze nos últimos vinte e um meses.
Ainda que não houvesse o que comemorar, forcei-me debalde.
Tive esperança, agradeci, acreditei, me enganei, decidi.
Abri os olhos. E só então pude realmente entender.
Sofro porque quero. Quero a plenitude que me aguarda.
Queria tanto já ter finalmente encontrado. Ledo engano.
É preciso ressaltar, para não incorrer na senda da injustiça,
Que vislumbrei doces momentos, pueris esperanças.
Ainda que muitas, percebo, talvez tenham sido fruto de minha
imaginação,
Valeram a vivência. Ensinaram-me.
Ensinaram-me o Amor. Amor Próprio, Amor à Vida.
Você morou muito tempo em minha cabeça, sem pagar aluguel.
Sinto que você está ainda retirando suas coisas,
Desocupando o imóvel…
Agora vem o momento em que vou pintar as paredes,
Fazer os devidos reparos… acertar as contas em atraso…
Dói olhar para o estado em que você deixou essa casa.
Dessa vez não alugarei a ninguém. Vou ocupar a totalidade eu
mesmo.
No decorrer da vida, quero convidar alguém pra morar comigo,
Mas nunca mais deixarei alguém assumir o imóvel assim.
Estou fazendo um grande esforço para não sentir raiva.
Juro a mim mesmo não me referir a você depreciativamente.
Por enquanto, mesmo tendo acordado sermos amigos,
Não posso ser. Não é justo com meus amigos.
Eu os trato de uma forma, lhes dedico carinhos, que não te
pertencem.
Não é possível. Tentei. Mas não tenho vontade dos seus
olhos.
Sei que isto é causado pela minha inferioridade.
Orgulho ferido, sensação de não
ter sido o bastante,
Ou pior, não ter sido merecedor da
sua atenção.
Minha boca não foi a que você quis.
Você foi procurar outras.
Meu corpo gritava pelo seu. O seu
sussurrava quase inaudivelmente
“Não estou querendo”.
Demorei pra perceber, porque não
sabia a linguagem de sinais (talvez).
Tenho certeza de que lerei isto
daqui um tempo e darei uma sonora gargalhada.
Pensarei no quanto eu fui fraco,
tentarei enumerar mais uma vez minhas qualidades
Pra ter certeza de que você perdeu
muita coisa.
NÃO!
Pra que ser tão cruel conosco?
Você perdeu muita coisa. Eu também
perdi. Ficamos quites.
Tenho um destino lindo pela frente.
De que terei medo?
Por que me entregarei à tristeza?
E, de mais a mais, meu Santo me
guarda! (Okê Arô)
Pedi pra Oxum me ajudar, pra Iansã
e Xangô fazerem justiça
(filho de Umbanda não cai)
Pedi pra Oxumaré transformar meu
coração,
Obaluaê transformar minha vida,
Ogum me ajudar nas batalhas,
Iemanjá levar o rancor pras ondas
do Mar Sagrado,
Nanã me dar sabedoria,
Exu abrir meus caminhos me
concedendo força e vitalidade,
E, principalmente, pedi pra Oxalá
me dar paz.
E assim termino essa despedida.
Pensei em qual seria a necessidade
de publicar isto.
Não seria melhor entregar em suas
mãos?
Escondi estas palavras em um lugar
que você possa encontrar, se quiser.
Por favor, não venha me dizer que
leu.
Não quero sua opinião, porque, no fim
das contas, escrevi pra mim mesmo.
Pro meu peito parar de sangrar,
Pra me libertar do passado de uma
vez por todas.
Eu ainda miro e vejo,
Mas vejo outro futuro,
Vejo um compromisso comigo mesmo.
Já me estendi além da conta.
Firmo-me, para não dizer outras
sentimentalidades movidas pelo calor da emoção.
Cordialmente,
Eu.
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