Texto escrito como resposta a amigos, antes da apresentação da cena "Desassossego", na VIII Semana de Artes da UFOP.
O
que desassossega é o ONTEM. É saber que o que passou - o que eu fiz, o que eu
não fiz, o que recebeu minha atenção e meu nome - não está no plano das coisas
que podem ser mudadas. O AGORA é diferente. Ele acontece neste momento. E é a
partir do que acontece no Agora que o AMANHÃ é moldado.
O
desassossego de AGORA nasceu ONTEM. Noutro dia. Num dia em que se fez pouco e
arrotou-se muito. Num dia em que o corpo parou de funcionar como máquina cênica
e transformou-se num mero holofote do ego. Somos todos seres humanos que
NASCEMOS, CRESCEMOS, NOS REPRODUZIMOS, MORREMOS e EXISTIMOS, mas muitas vezes,
nos recolhemos em falsas solidões, nos tornamos vítimas de nosso insuportável
ego. Como deixamos isso acontecer? Mas é pra isso que serve o AGORA: para
assumirmos tudo aquilo que nos desassossega. O tempo todo somos usados, por nós
mesmos, pelo outro... e no fim das contas, não resta nada além do ridículo
exibicionismo do qual parte dos seres humanos depende patologicamente.
Não falarei
aqui dos desassossegos da mídia, dos desassossegos da sociedade, dos
desassossegos que são todas as máscaras que nos são impostas ao decorrer da
vida, o desassossego de morrer e não ter existido... tudo isso eu deixo para a cena Desassossego
que muitos de vocês assistirão.
Aqui,
exorcizo os meus desassossegos imediatos - que são meus e só meus, mesmo que
tenham partido de experiências de [des]encontro. Meu desassossego é não ter
falado NÃO no começo, para evitar que tudo tivesse caminhado para o fundo. Meu
desassossego é admitir que fui usado pela máquina como suporte para sua
[in]gloriosa missão de brilhar na casa da ilusão a qualquer preço. Agora
termino, RENASÇO, RECRESÇO, RE-REPRODUZO, REMORRO, RE-EXISTO e me REINVENTO e
parto logo para um desassossego mais consistente e digno de nossa atenção.
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