Da trilogia. 1.INFÂNCIA
...OU O MICRO-CONTO DO MENINO QUE DESCOBRIU O AMOR SOZINHO SEM NINGUÉM LHE CONTAR
(fragmento)
Amora? _Ele não entendeu.
É, amora! _Repeti sério. Mas isto não foi o bastante.
A-MO-RA... Eu disse pausadamente e ele se enfureceu. Achou que eu estivesse caçoando. Mas não era verdade.
Ele quis saber por que eu, do nada tinha dito aquilo. E eu não tiro-lhe a razão. Estávamos os dois sentados no murinho, em frente a escola - ele falando sobre o Cruzeiro, eu olhando a imagem refletida nos óculos dele, sem prestar atenção a uma palavra sequer. Tudo bem. Qualquer um ficaria incomodado, eu sei. Mas é que no reflexo dos óculos eu vi o pé de amora carregado de frutinhas, mais que roxas, quase pretas. Sempre fiquei com dor de cabeça depois de comer amora. Nem por isso deixava de saborear cada uma que passasse por mim até ficar com os lábios tingidos.
Amora... _Eu disse conclusivo e apontei para o pé. Aaaahhhhhh! _ Ele exclamou compreendendo só agora. Antes tarde do que nunca.
Pronto. Já estávamos os dois debaixo daquela árvore. Ela tinha uns dois metros de altura e os galhos cresceram e dobraram para baixo fazendo uma espécie de barraca. Sentamos dentro dessa residência de amantes de amoras e começamos a catar e comer as frutinhas.
Eu sei que em dado momento, já lambuzados de amora, olhamos um para a cara do outro e rimos até chorar, descontrolados. Choramos.... Choramos... Choramos... Nos olhamos de novo e demos um sorrisinho amarelo. Ele foi ficando transparente... transparente... transparente... até sumir dentro de mim de novo. Sozinho, percebi que dentro de mim AMOR HÁ.
(G.M.S.R.)
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