sábado, 20 de agosto de 2011

A Última Dança de Myoho

Finalmente publico a minha primeira dramaturgia escrita na UFOP. O texto foi interpretado por mim na Mostra de Monólogos e Música da Semana de Artes de 2010. Estou preparando uma nova montagem para a obra, mas enquanto isso não acontece os caros leitores podem conhecer este meu filho querido nas linhas que se seguem.(Ah, e tem também o cartaz da época da estreia.)




No começo tudo era nada. Um grande e vazio nada. Tudo era ordenado na desordem sem começo nem fim. Até que em um dia Ele resolveu que ia aprender a dançar.
Era um Deus solitário – O Grande Ser - com um Universo inteiro só para Ele. Acordava bem cedo, espreguiçava-se em sua cama e ficava olhando para a eternidade. Numa manhã dessas, Ele decidiu que ia aprender a dançar.
Pegou todo o seu Amor e foi dividindo. Parecia um grande boom! Uma explosão linda! Dessa explosão nasceu sua parceira de dança, a Criação.
O Deus solitário e a bela Criação resolveram após um rápido alongamento - não mais que meia eternidade – que estavam prontos para começar a dançar. A coreografia ia ser construída em oito movimentos, e essa oitava ficou por conta do deus solitário.
Primeiro Movimento!
Ele criou um espaço para dançar. Um lugar onde os dois pudessem rodopiar à vontade. Chamou-o de mundo! O lugar onde ficaria o palco. “E que haja luz!” Ele gritou e os refletores se acenderam.
Segundo Movimento!
Ele pintou um fundo azul para o cenário, como nuvens que iam passando... De um lado para o outro... Mudando de forma...
Terceiro Movimento!
Ele se dedicou ao palco. O mais bem feito que já vi. Os mares dançando ao redor de grandes patamares de terra – estrutura firme! Na cenografia, criou estruturas muito bem trabalhadas e funcionais: plantas, flores, árvores e frutos de tudo que é tipo.
Quarto Movimento!
Ele afinou a iluminação. Criou um sol forte para as cenas mais iluminadas, mais esplendorosas e uma lua cercada de estrelas para um momento intimista mais próximo da plateia.
Quinto Movimento!
A Criação resolveu que precisava de mais elementos de cena e o Grande Ser criou animais. Uma bicharada bonita! Bicho em cima da terra, bicho em baixo da terra, bicho que voava, bicho que nadava, bicho que corria. A montagem ficou deslumbrante com os novos adereços. Mas só ficou pronta mesmo para dançar no sexto movimento.
Sexto Movimento!
O Deus solitário criou um tal homem e de um pedaço dele, criou a mulher. Agora podiam fazer os passos ensaiados! Mais dois movimentos e a coreografia estaria completa!
Sétimo Movimento!
Como já estavam adiantados, o Deus solitário resolveu dormir. Voltou para os seus aposentos, fechou os olhos e adormeceu profundamente. Quando acordou, não acreditou no que viu.
Oitavo Movimento!
O homem e a mulher que Ele tinha criado resolveram fazer sozinhos o Oitavo Movimento. Os dois dançando sozinhos multiplicaram a dança e logo o mundo estava cheio de gente. O Ser olhou para aquilo e ficou preocupado. Os homens começaram a girar, girar, girar tão descontrolados que caíram ao chão. O Ser se ofereceu para ajudar, mas o homem se levantou e saiu correndo pelo palco.
O primeiro passo do homem foi juntar seu bando e sair na frente. Pedras, paus, ossos e ele já estava no comando. Assumiu a postura vertical e quando atirou a primeira pedra para ferir seu semelhante estava finalmente civilizado.

Passou então a dançar com enormes blocos de pedra nas costas. E diziam uns aos outros:
_Venha! Vamos juntar todas a pedras e vamos construir um lugar seguro, onde a chuva não molhe, onde o sol não castigue, onde os animais não incomodem e onde tudo o que é meu fique guardado! E que ninguém mexa! Porque o que é meu é sagrado!
E todo mundo resolveu dançar construir esses lugares de pedra. Deram um nome interessante para esse movimento: cidade.
Foi neste momento que cada homem quis fazer seu solo. Dançar sozinho enquanto os outros ficavam olhando. O Grande Ser se ofereceu para dançar junto, fazer um “duo”, mas o homem não quis. Ele agora era Rei. E já que um podia, todos queriam também. Resultado: surgiram reis em todos os cantos. Cada um querendo coreografar um ballet próprio e egoísta.
O tempo foi passando e o Grande Ser, continuava sendo um Deus solitário. Foi aí que Ele teve uma grande ideia. Resolveu ser homem também. Desceu e convidou o homem para dançar. Alguns gostaram. Outros acharam a ideia ridícula. Tão ridícula que pregaram esse homem-Deus em uma cruz.
Mas tudo desandou mesmo na hora de escolher o primeiro bailarino do espetáculo. Cada homem queria aparecer mais que o outro. Esqueceram-se de que a coreografia só funcionava quando os dois: O Grande Ser e a Criação dançavam juntos. Criaram uma partitura corporal chamada guerra. As luzes foram para um tom avermelhado, da cor do sangue derramado dos homens. Na mise-en-scène formada, os pais foram lutar na guerra, as mães foram chorar pela guerra e os filhos foram brincar de guerra.
_Esse silêncio que antecede a explosão da bomba é a pior coisa. E um, dois, três, quatro, Hiroshima, Nagasaki, sete, oito, puxa a ponta!
E não adiantava o Grande Ser falar nada! No meio das explosões e risos o homem não ouvia nada. Foi então que curiosamente o homem resolveu colocar esse Deus solitário na dança de novo.
(Com canto gregoriano)
“Um cheiro de vela queimada
Um gosto de cera derretida na boca
Em nome do Deus solitário
Nós jogamos bombas nos outros homens
E nos explodimos em nome de Allah!”
Não satisfeita, a Criação resolveu mudar o cenário e o figurino original. Derrubou as árvores – não vão fazer falta. Tem muitas por aí. Mataram milhares de animais – mas o mundo é dos mais fortes, não é mesmo? As pessoas começaram a morrer sem água no meio das enchentes, tempestades, inundações, tsunamis. Sem ar para respirar no olho dos ciclones e furacões, ou enquanto os aviões caiam. O público assistia cada vez mais impressionado. Estava chegando o “Gran-Finale”.

Olha só! Viu o que Você fez? Viu só no que deu? Está satisfeito agora? O último movimento, o oitavo movimento da coreografia do homem vai se acabar em uma desgraça?
“Onde pode acolher-se um fraco humano?
Onde terá segura a curta vida?
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno...”
Foi então que um foco de luz se acendeu no alto de uma escadaria no centro do palco. Era o Deus solitário que finalmente podia entrar na coreografia. Segurou a Criação pela mão e a fez girar. Como em um passo ensaiado, retomaram a coreografia. Ele aproximou-se da Criação e sorriu como quem diz “Vai dar tudo certo.” O homem então compreendeu tudo. Uma lágrima molhou o tablado e os refletores se enfraqueceram. O oitavo movimento finalmente chegava ao fim. O último instante em cima do palco e depois a morte. Mostre escandalosamente silenciosa que chegaria sem avisar quando o público aplaudisse de pé ao espetáculo do homem. Um último movimento e o Deus solitário voltou a ter companhia. Sua Criação o abraçou e eles se posicionaram para agradecer. O homem fechou os olhos para sempre. Os oito movimentos estavam completos!

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